Eça de Queiroz, vinte anos depois de ter escrito esta Farpa, na altura em que a a republicou em "Uma Campanha Alegre", disse que, se calhar, tinha exagerado um bocadinho...
Ora bem, 140 anos depois, nós, o que pensamos disto?... Será que Eça exagerou mesmo?... Ou não?...
IX
Junho 1871.
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular
estado:
Doze
ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder,
perdem o poder, reconquistam
o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma
péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras,
pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder,
esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros
que lá não estão – os corruptos,os
esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os
seus jornais – os verdadeiros
liberais, os salvadores da causa pública, os amigos
do povo, e os interesses do País.
Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem
tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores
da fazenda e a ruína do País, durante
o maior tempo possível! E os que não estão no
poder movem-se,
conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais, e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na
designação herdada de
esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto
que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio – a vir
a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou
quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador
da fazenda e ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a
demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as
coisas públicas – pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações
da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão
dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte,
coroado de rosas, e num chouto tão
triunfante!