sábado, 15 de fevereiro de 2020

O casal de velhos, as escadas do metropolitano e a garrafa

Estava eu a chegar à entrada do Metro, nos últimos degraus da escada de acesso, reparo que um
senhor, já de muita idade, agita-se em cima de titubeantes pernas, atrapalhado com a iminência dos degraus rolantes que se vão desfazer em chão movediço. A cara contrai-se num esgar medroso, que mostra bem o que lhe vai no corpo e na alma.
Traz um saco grande de compras na mão esquerda, tentando equilibrar-se com a direita no corrimão andante que também lhe foge. Quase cai quando põe os aflitos pés em chão finalmente parado.
Instintivamente, esboço um gesto de apoio, mas, à distância que ainda estava do senhor, eu não chegaria a tempo de o ajudar.
Dois degraus atrás, ainda sobre eles a rolar, firme nas duas pernas, a mulher do senhor tão atrapalhado, ia olhando, aparentemente impávida, o marido. Também levava um saco de compras na mão.
No mesmo momento em que fiz o gesto reflexo de ajuda para o senhor, ela diz:
«Cuidado, homem. Olha a garrafa, não partas a garrafa.»
Não disse mais nada, o senhor nada disse nem lhe disse.
Eu fiquei um pouquinho a olhá-los, ele um bocadinho à frente, ela um bocadinho atrás, caminhando devagar. Calados, sem dizerem nada um ao outro, sem se olharem.
Pareciam resignados à sua sorte, à sorte do que acontece dia após dia em gente das suas idades, de solitárias e pobres vidas a dois. Naquele instante, ele resignado à sorte de não ter caído nas escadas rolantes. Ela resignada à sorte da garrafa se ter conservado inteira.
Entrei na galeria da estação do Metro e fui à procura do elevador para a superfície, será que estaria avariado? Não, não estava avariado - só que os faria sair num passeio que os deixava um bocadinho mais longe do passeio de casa e os obrigava a atravessar um cruzamento com semáforos complicados.
Que opção tomarei eu quando tiver a idade dos senhores?...

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

As razões do ódio: Extremismos - 4.º episódio da série de Spielberg

Jesse Morton, que se tornou muçulmano radical, rebaptizando-se com
outro nome; e depois abandonou o radicalismo islâmico após
uma fascinante experiência de trabalho para um patrão judeu.
Do quarto episódio: Extremismos

  • A mensagem deste muito eficaz vídeo é simples, tal como no 3.º episódio: qualquer um de nós pode, sem que disso se dê conta, num curto espaço de tempo, ser protagonista de comportamentos extremistas, violentos, sozinho ou em bandos.
  • Verdadeiramente, o problema não está na natureza das pessoas, mas nos papéis sociais que as pessoas têm, ou realizam, nos seus grupos de pertença.
  • As pessoas coadunam-se naturalmente às exigências dos papéis que lhes são atribuídos..
  • A principal fragilidade que põe qualquer pessoa em risco de adesão a grupos radicais e violentos é a ausência ou perda de sentimento de pertença a uma comunidade (ver o que escrevi a propósito do episódio 2, sobre o Tribalismo). Os membros dos grupos radicais, extremistas, encontram no grupo o que não encontram na família, na escola e na comunidade de pertença: os laços de união, a comunhão, o sentimento de partilha e de pertença.
Alguns comentários pessoais:
  1. No fundo, desde o primeiro instante do documentário, o alerta é o que nos traz o Die Welle (A Onda), o filme alemão de 2008 realizado  por Dennis Gansel e inspirado nos acontecimentos verídicos protagonizados nos E.U.A. pelo professor de História Ron Jones e os seus alunos, nos anos 60 do século XX. Aliás, Ron Jones acompanhou a produção, aconselhou e protagonizou este extraordinário filme, que passo todos os anos aos meus alunos de Psicologia, desde que o filme apareceu legendado em Português.
  2. Diz, no Die Welle, o aluno que faz soar o alerta na consciência do professor: «O que aconteceu na Alemanha nazi é impossível acontecer agora connosco, estamos todos agora muito bem informados e alertados». Ora a questão central não é do foro da cognição e da informação; isso sim, é do foro do afecto e do sentimento de pertença ou comunhão. No filme, os miúdos reclamam a necessidade de sentir a "mannshaft" (o grupo, a equipa).
  3. O filme mostra de forma arrepiantemente realista que a mudança pessoal não precisa sequer de uma semana, obrigando a rever todos os conhecimentos estudados na Psicologia Social experimental, que tinha apurado períodos de tempo muito mais longos.
  4. Volto ao impressionante registo cinematográfico de Claude Lanzmann para sinalizar que, na última cena de conversa colectiva, à porta da igreja de Chelmno, que juntou o "velho" miúdo de 13 anos, judeu, que se safou da morte por ter uma voz linda para cantar para as tropas alemãs, aos agora idosos da aldeia que ainda se lembravam dele, a cena parece que é cortada abruptamente. E isso não aconteceu, seguramente, por acaso! É que a conversa, no seu desenvolvimento natural, encaminhou-se para trazer de volta aos aldeões polacos os ancestrais ressentimentos dos cristão contra os judeus que acusaram Cristo e o levaram à crucificação; e houve o bom senso de a parar. Parece mesmo que, mais um pouco, e aquelas pessoas deixadas à sua simplicidade e ao seu baixo nível cultural, voltariam a entregar o pobre judeu aos nazis alemães. Pessoas simples, reféns da (de)formação cultural inculcada séculos e séculos - e que só uma sábia e assertiva pedagogia, com a concreta transformação positiva das condições de vida das pessoas, pode amaciar, ou mesmo eliminar. É verdade: os velhos ódios, reais ou imaginados, idealizados ou negativamente mitificados, na falta de domínio pessoal da informação e da adequada maturidade cívica e cultural estão sempre prontos a irromper outra vez.

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(1) Ver na Euronews:
https://pt.euronews.com/2019/11/01/nova-lei-de-controlo-da-internet-entra-em-vigor-na-russia

(2) Shoah, 4*DVD, Midas Filmes, Portugal, 2013.

As razões do ódio: Instrumentos & Tácticas - 3.º episódio da série de Spielberg

Do terceiro episódio: Instrumentos & Tácticas
O jornalista Jelani Cobb, o condutor deste episódio de Why we hate.


  • A mensagem deste muito eficaz vídeo é simples: o ódio pode ser muito facilmente alimentado, fazendo-se uso de adequados processos de propaganda, organizada de forma sistemática, sendo quase intuitiva.
  • A propaganda divulga informação, ou melhor, divulga desinformação, quer dizer, incompleta, não verdadeira ou distorcida.
  • A propaganda produz despersonalização, desumanização; usa processos cada vez mais sofisticados de notícias falsas (fake news), alimenta os sentimentos de insegurança e de medo.
Alguns comentários pessoais:
  1. Todos nós, nas nossas decisões, em todos os níveis das nossas decisões, desde as mais elementares, corriqueiras, do dia-a-dia, fazemos uso de informação. De informação adquirida anteriormente, ou procurada na hora.
  2. Quanto mais nos afastamos do nosso envolvimento directo (a casa, a família, a escola, o trabalho, o bairro, a colectividade, etc.), mais a nossa participação pessoal (cívica, política, gregária) está dependente de informações que nos chegam dos jornais, das televisões, da Internet, das redes sociais; dos livros; e das outras pessoas.
  3. Sem a informação adequada e oportuna ficamos mais dependentes dos mecanismos psicológicos básicos de organização simples da informação necessária às nossas tomadas de decisão: as crenças, os estereótipos e os preconceitos.
  4. Sem informação, sem conhecer, podemos pensar com base em crenças, em estereótipos, e em preconceitos. As crenças, os estereótipos, os preconceitos ajudam a pensar - não podemos passar sem eles! São atalhos, são filtros, de que a mente se serve para poder pensar mais, mais depressa e melhor.
  5. O grande problema é quando as crenças, os estereótipos e os preconceitos são negativos. Também é problema quando os governantes, os deputados, os partidos; os donos e os protagonistas da comunicação social; os pais e os professores os usam perversamente e desonestamente e/ou ignorantemente na formação das mais jovens gerações.
  6. Hoje em dia, para além dos tradicionais e muito poderosos níveis de propaganda (os governos dos países, as grandes organizações económicas, financeiras e empresariais), abundam também outros com poucos recursos e grandes audiências, por exemplo, muitos youtubers.
  7. O acesso livre do cidadão à informação - que hoje em dia é praticamente sinónimo de acesso à Internet - é um ponto nevrálgico da liberdade ou do condicionamento do cidadão. Dois exemplos: precisamente hoje, na abertura da Web Summit, os governantes portugueses (Portugal é o país anfitrião) só entraram na sala, para dar as boas-vindas, depois de Edward Snowden falar, não fossem ferir susceptibilidades políticas institucionais; e os E.U.A. não ficaram nada agradados com que fosse dada a palavra ao líder da Huawei, da China. Entretanto, a China é um dos países que criaram leis de acesso à Internet; o último a fazê-lo terá sido a Rússia (1). Em Portugal, entretanto, não se entende por que razão ou razões o Ministério da Educação, na sua rede oficial para as escolas, bloqueia o acesso a 'sites' na verdade muito interessantes para os alunos das escolas públicas.
  8. No que diz respeito aos processos e mecanismos de propaganda, não obstante tantos anos passados, o regime nazi de Hitler continua a ser um exemplo extraordinariamente bem organizado e eficaz. É impressionante, ainda hoje, constatar que, 80 anos depois, ainda não foi encontrado um único documento oficial a dizer "Vamos matar os judeus todos". O mais aproximado é o quase eufemístico "Solução final". No notável documentário cinematográfico de Claude Lanzmann, SHOAH, de 1985, no final da actual edição pública, em dvd, no segundo cd, com o título "Shoah, primeira época, 2.ª parte" (2), o o autor faz a leitura de uma sofisticadíssima carta, redigida por engenheiros alemães ligados à construção dos camiões (marca Saurer) em que eram transportados os judeus quando, na primeira fase da Solução Final (a que era feita essencialmente através do fuzilamento e do gaseamento pelo monóxido de carbono emitido pelos tubos de escape dos camiões), aconselhavam ao aperfeiçoamento das carroçarias dos camiões em razão do tipo de "carga" ou "mercadoria" que se mexia dentro dos camiões fechados, tinha tendência a chegar-se aos pontos de maior luminosidade, de gritar e de entrar em pânico. No fundo, tudo era feito para que as pessoas inculcassem dentro de si mesmas as ideias, os sentimentos e os desejos dos autores da propaganda. Quer dizer, as pessoas não eram apenas obrigadas ou obedientes; eram coniventes, e mais: tornavam-se autoras. Que eficaz propaganda!

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(1) Ver na Euronews:
https://pt.euronews.com/2019/11/01/nova-lei-de-controlo-da-internet-entra-em-vigor-na-russia

(2) Shoah, 4*DVD, Midas Filmes, Portugal, 2013.

sábado, 2 de novembro de 2019

As razões do ódio: Tribalismos - 2.º episódio da série de Spielberg: Tribalismos

Do segundo episódio: TRIBALISMOS
  • Como foi maravilhosamente dito e mostrado na curta-metragem  de Vicent Moloi, "O Traje das Mulheres Herero", de 2007, «todos nós queremos pertencer [a uma tribo, a um grupo humano e cultural], saber de onde vimos,  isso é importante na vida de toda a gente». (1)
  • Como já antes de eu chegar ao magistério da Psicologia, há 30 anos, os manuais vulgarizados da disciplina do ensino secundário diziam, atribuindo a autoria a Aristóteles, «O Homem é um ser eminentemente social. Todo aquele que é capaz de se bastar sozinho, ou é um deus, ou é uma besta, mas não um ser humano».
  • As tribos compõem-se e organizam-se para proverem à segurança e bem-estar dos seus membros - até mesmo nos grupos tribais de animais não humanos.
  • Desde as mais tenras idades, os seres humanos fazem a experiência social e cultural da tribo; e aprendem a reconhecer os que são da sua tribo, e a identificar os estranhos, os que a ela não pertencem.
  • E provavelmente a mensagem mais importante: «O que provoca o ódio é a percepção , não é a realidade». Das pessoas, das coisas e dos acontecimentos.
Alguns comentários pessoais:
  1. Partilhamos com  muitos animais, especialmente os que estão geneticamente mais próximos de nós, a necessidade e o conforto de pertença a um grupo. A exclusão do grupo de pertença foi castigo terrível na Grécia Antiga, era o ostracismo. Nos outros primatas, esse castigo também existe, e tende a ser para toda a vida. Por exemplo, Jane Goodall testemunhou e guardou registo de casos assim em grupos de chimpanzés.
  2. Do ponto de vista da experiência psicológica pessoal, íntima, a consciência e o sentimento da não pertença ao grupo (família, escola, bairro, clube, etc.) é fonte de distúrbios mentais carregados de muito sofrimento; e com um potencial de manifestação de sentimentos negativos e acções prejudiciais à integridade dos outros e à do próprio indivíduo que se sente deslassado.
  3. Alguém um dia tornou famosa a afirmação «Aprende-se mais a ler num homem do que em 10 livros». E para ler os homens temos de estar com eles, vê-los, falar com eles, fazer coisas com eles. Este é o procedimento que faz a diferença entre a boa e a má pedagogia das relações pessoais entre os membros dos diferentes grupos humanos.
  4. O filme Die Welle (A Onda), magistral realização cinematográfica a partir de uma ocorrência verídica numa escola americana (2), mostra que os comportamentos irracionais, radicais e muito violentos estão sempre prontos a irromper, e na vertigem de apenas uma semana escolar, tudo pode mudar, com danos, por vezes, absolutamente irreparáveis. Cá está, paradoxalmente, com base na genuína fruição dos sentimentos de pertença - que, entretanto, se cruzam e compensam tantos sentimentos de frustração afectiva, abandono e deslassamento social e afectivo.
  5. No Principezinho, a Raposa diz assim para o menino: «É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…» Não, Raposa, não é simples. Num coração inseguro, carente, infeliz, descrente, os olhos são a porta da saída para o caminho da Esperança e do Entendimento.
  6. O medo do Outro é, na maior parte das vezes, o medo que as crianças têm das sombras dos dedos projectadas na parede à sua frente.
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(1) Ver no Youtube, num canal do próprio realizador:https://www.youtube.com/watch?v=O_pKMyRvPEo
(2) Ver no Youtube, no canal História:  https://www.youtube.com/watch?v=QxdmL3SCGM4&t=1718s

As razões do ódio: As Origens - 1.º episódio da série de Spielberg

Do primeiro episódio: AS ORIGENS
  • Naturalmente, os autores foram procurar a expressão da agressividade e do ódio noutras espécies animais, sobretudo das que estão geneticamente mais próximas da nossa.
  • Constataram coisas muito interessantes, e deram grande relevância às semelhanças e diferenças que existem entre espécies tão próximas, tantas vezes confundidas entre si: os chimpanzés e os bonobos.
  • Os chimpanzés expressam de forma bem mais intensa a agressividade e o ódio; e a competição, nos chimpanzés. Os bonobos são mais pacíficos e solidários.
  • As explicações são genéticas e ambientais. A disputa de comida ou a abundância de alimento disponível fazem a parte de leão da explicação das diferenças. A fazer lembrar o ditado popular "Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão".
A estas constatações, que acrescento eu? 
  • Que, como tantos autores observam, provam e afirmam desde os primórdios das civilizações - por exemplo, os gregos clássicos; os Abel e Caim das bíblias; os contemporâneos Richard Dawkins e António Damásio -, a agressividade é uma característica básica da nossa espécie - biológica, genética. Está ao serviço da vida, e a vida reclama, muitas vezes, competição. É verdade, não há Paraíso terreno, tanto para os que crêem em Deus, como para todos os outros.
  • Que vale muito o pensamento de Konrad Lorenz em que ele afirma que, no fundo, as diferentes experiências civilizacionais expressam muitas das tentativas dos grupos humanos para controlar, através do estabelecimento de rituais no contacto pessoal, seja entre conhecidos, seja entre desconhecidos, a manifestação da agressividade. Atenção! Está ele a falar da manifestação da agressividade que não serve a Vida, pelo contrário, põe em perigo a vida dos grupos humanos e das pessoas.
Que percepção tenho eu do que está a acontecer?
  • Que estamos em pleno tempo de grave extinção de espécies culturais e civilizacionais.
  • Que quero eu dizer com isto? Genericamente penso que, juntámos
    - um desenvolvimento social e comunicacional positivo (acesso mais livre, rápido, pessoa e directo à informação; e à muito acrescida possibilidade de todos comunicarem directamente com todos),
    - a pressa em comunicar (reduzindo imenso a reflexão sobre a informação acedida),
    - e a expressão de opiniões e tomadas de decisão mal informadas e avidamente moldadas por necessidades emocionais perturbadores,
    - a soma, no fim, é um muito mau resultado.
Em que resultou este muito pouco saudável comportamento aditivo?
  • Desdenhamos dos rituais civilizacionais, atacamo-los; e tudo o que sugira regulação ou controlo do comportamento pessoal e social é tomado como injusto, racista, xenófobo, discriminatório, excluidor. Cada vez mais praticamos, com raiva e intolerância crescentes, a velha imagem de deitar fora a água suja do banho do bebé e também o próprio bebé.
  • Das diferenças naturais fazemos oposições radicais em que só há o Zero e o Um: ou és dos nossos ou estás contra nós; ou pensas como nós e és porreiro e sábio, ou pensas outras coisas e és mau, perigoso e ignorante.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MENTIRAS, POIS NÃO; MAS VERDADES CONVENIENTES TAMBÉM NÃO!

Professor Bagão Félix,

Vou levar o seu texto, A Pós-Mentira, aos meus alunos de Psicologia. Raramente a Comunicação Social nos traz textos de opinião que valorizem tanto as investigações psicológicas - as feitas por políticos actuais, ou mais ou menos passados; e não imediatamente ligados ao saber profissional das psicologias.
Vou levá-lo pelo que diz e pelo que mostra: explícita e implicitamente.
Sabe, a primeira coisa coisa que pensei foi mais ou menos assim:
Se o texto é de há vários meses, porquê agora?... Será que não teve oportunidade de o ler logo? Há tanto que ler, seja qual seja o assunto ou a área de conhecimento, não é verdade? Ou será que é um texto que casa bem com o assunto das verdades ou das mentiras do ministro das Finanças, Mário Centeno?
Senhor Professor, tradicionalmente os papás e as mamãs dizem às crianças que é feio mentir; e nem precisam de investigações mais ou menos sofisticadas para terem ideia de onde as mentiras deixadas em roda livre podem levar - e não são apenas as tão deliciosas confabulações próprias da infância.
A investigação que cita é, de facto, muito interessante; e mentir é também um comportamento, em princípio, condenável.
Ora, condenáveis são também outros comportamentos, por exemplo, os que tocam à honestidade, à lisura das acções. Deixe-me que lhe diga que penso que isso está em causa no seu texto, no quer escreve e no momento em que o publica. E sobre a falta de honestidade e de lisura os papás e as mamãs também intuem facilmente. Da falta de honestidade e da falta de lisura à manipulação social, sob o manto diáfano da verdade, vai um pequeno, triste e lamentável passo.
Repare, eu não estou a defender ninguém! Só quero mesmo criticá-lo a si, até porque não esperava isso de si. Tenho-o noutra conta, a outras pessoas daria total desprezo pelo que escrevesse; e, se lesse, na melhor das hipóteses, soltaria um impropério e logo a seguir esqueceria o artigo de opinião.
Não terá sido puramente casual o facto de o mesmo jornal publicar, junto do seu, um artigo de opinião de um outro político, Paulo Rangel, a falar, imagine-se!, da "palavra dada, palavra honrada".
Sabe, pensei logo em telhados de vidro! Tanto os dele como os seus, Professor; e também na lição (mal aprendida?) que Paulo Rangel terá aprendido com os seus pais sobre essa palavra dada e honrada... que tanto filho, afinal, desonra.
Não é curioso, Professor, que o seu texto não fale uma única vez em deputados, governantes e políticos?... Caro Professor, vá lá, não brinque com as palavras, nem ao gato escondido com rabo de fora!... É claro que nos quer falar de Mário Centeno e seus comparsas! O que faz todo o sentido!
Mas, como perguntava o célebre jornalista, onde estava o senhor no 25 de Abr..., perdão!, no tempo de outras governações e desgovernações? Com ou sem textos da Neuroscience?
"Pós-mentira", diz o senhor... É a primeira vez? E as pré-mentiras, as quase-mentiras, as para-mentiras; as inverdades, as mentiras que a avestruz deixou passar; ou mesmo as verdades que se preferiu omitirem-se? E as memórias e os esquecimentos - voluntários e involuntários?
É verdade, caro Professor, nos meus critérios de avaliação ética (certamente para mais ninguém valem senão para mim), o seu texto tem nota claramente negativa. Vou continuar a ler os seus textos com todo o respeito, desejando que repitam o que encontrei em tantos outros, mas não neste.
Um abraço cordial!
E faço votos de que logo esteja tão contente quanto eu com o nosso Glorioso!

domingo, 12 de junho de 2016

EÇA DE QUEIRÓS PREOCUPANTEMENTE VISIONÁRIO?

http://traulitar.blogspot.pt/2015/11/chic-valer-la-dizia-damasoeca-de.html
EÇA DE QUEIRÓS PREOCUPANTEMENTE VISIONÁRIO?

«com o advento definitivo das democracias, haverá na Europa, não a universal fraternidade que os idealistas anunciam, mas talvez um vasto conflito de povos, que se detestam porque se não compreendem, e que, pondo o seu poder ao serviço do seu instinto, correrão uns contra os outros» (Eça de Queirós, "Fraternidade", 1890. INCM, 2011, p. 223)
Houve a 1.ª Grande Guerra, depois a 2.ª Grande Guerra; e agora...