quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Adriano Moreira - A casa comum política

ADRIANO MOREIRA

A casa comum política

por ADRIANO MOREIRA12 agosto 2015


A expressão "casa comum" que o Papa Francisco usou para a sua Segunda Carta Encíclica, e que tem relação com o conflito humano com a mãe Terra, tem precedente de uso em ambiente mais guerreiro, que foi o de pôr um ponto final naquilo que foi chamado a Guerra Fria. De facto foi a referência essencial de Mikhail Gorbachev, quando adotou a política de instauração de regras de jogo para a coabitação que deveria assentar em "medidas de confiança" entre os dois pactos militares - Confidence-Building Measures.

Infelizmente nesse tempo foi necessária a crise dos mísseis de Cuba e a serenidade levada ao limite por Kennedy para evitar um conflito nuclear, receio que estava presente na Conferência de Helsínquia de 1975, e finalmente levou à formação da OSCE - Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Nesta data de verdadeira crise interior na União Europeia, com o amor à unidade posto em causa por formações políticas novas e contestatárias, e pelas pequenas pátrias continuando a contestar a unidade do Estado em que se integram, não parece que o estado de espírito do presidente Putin esteja cheio de memória da "casa comum" que animou Dmitri Medvedev, segundo o pressentimento e aviso do observador Montbrial (2014), e o seu projeto em desenvolvimento de "império do meio" obriga a interpelar a eurocracia que governa de facto a União, falando ao ouvido do príncipe, para não limitar a agenda europeia à orçamentologia.

Para não termos uma progressiva perda de tempo para acudir aos sinais, que exigem resposta, para que o facto não seja "a guerra em toda a parte". É uma inquietação que se agrava ao verificar que organizações fundamentais sonhadas para que "o desenvolvimento sustentado" seja o nome da paz, a convencer todos os Estados que aderiram à ONU, hoje pareçam em pousio em muitos setores, sem desmerecer todavia o muito que se lhe deve, e que sem essa contribuição estaríamos pior. Os exemplos são gritantes, e por isso, designadamente, erros como os cometidos no Iraque levaram a desastres que incluem o terrível confronto causado pela revisão de fronteiras, a insistência na democracia atómica aconselha a transformar em acordo casos como o do Irão, dramas como os dos palestinos, que há gerações não sabem o que é viver em liberdade, não consentindo que Israel viva em paz, e o mundo sem a paz de espírito da justiça restabelecida, esperam solução. A igualdade dos Estados que a Carta da ONU prega não é compatível com os receios causados pelos emergentes, enfim: a "casa comum" precisa de uma "excelentíssima e reverendíssima" reforma, talvez a começar pelos vários regionalismos, de que a União Europeia apareceu como exemplo de esperança, e que ela própria parece tender para preferir o exemplo das divergências entre ricos e pobres, entre ambições diretoras em vez de conceito estratégico, esquecida do "bem comum" com a crise financeira, a economia de caminho único, e o liberalismo repressivo que desse modo dispensa o Estado social.

De tempos a tempos a história regista o medo de ter chegado o fim do mundo, e para muitos povos, Estados e nações o século passado foi semeado de acontecimentos com dimensão para despertar tal convicção. Nesta entrada de um século sem bússola em que estamos, a desordem internacional abrange a própria capacidade de a Terra se manter em termos de sustentar a vida.

O balanço político, económico e diplomático, que as publicações especializadas vão fazendo, não é animador em relação à maioria dos Estados filiados na ONU. Os conflitos militares dos últimos tempos, por exemplo a intervenção no Afeganistão, ou o Darfur, ou a Palestina, e agora o Estado Islâmico, mais as crises económica e financeira mundial, fazem concluir que Estados de grande potência, pequenos Estados, Estados falhados, todos finalmente estão em igual incerteza global quanto, pelo menos, ao "fim do mundo único", em um dos vários sentidos que cabem na expressão.
OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 010. TÃO TRISTE ME DEIXA A SATISFAÇÃO DE JEAN MONNET

Jean Monnet, como facilmente se entende, é celebrado, homenageado, até glorificado, por uns; mas também tem os outros - os detractores, os acusadores, os críticos. Talvez a mais agreste de todas as acusações seja a de ser um francês, um europeu, a soldo dos Estados Unidos da América, em resultado de um fascínio quase hitleriano por Roosevelt. (agreste é agreste...)
Até ver, tanto quanto sei, não têm razão estes agrestes críticos de Monnet.
São claros, na sua autobiografia, os testemunhos de apreço, respeito e admiração de Jean Monnet por Roosevelt.
É precisamente do intenso relacionamento que Monnet mantém com o "general" Presidente dos E.U.A. que resulta este tão triste - para mim, é claro, mesmo que o entenda no seu contexto - enumerar do que, logo a seguir, Monnet comentou assim:
«Desde esse dia, mais do que em qualquer outro momento da minha vida, senti a satisfação de ter contribuído para uma decisão que modificaria o curso dos acontecimentos.» (Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p. 178) (1)
Tenho a cada vez mais firme convicção de que Monnet foi um incansável lutador a favor da Paz, da Cooperação e da Solidariedade; mas, do ponto de vista da História dos Homens, o motivo, o conteúdo de tanta satisfação é absolutamente lamentável. É quase obsceno. A este, alguns parágrafos à frente, Monnet traz outra... "obscena" inventariação.
A primeira enumeração:
«[Roosevelt] Não escondeu nada à opinião pública sobre os objectivos de produção militar: sessenta mil aviões de todos os tipos em 1942, cento e vinte e cinco mil em 1943, quarenta e cinco mil mil carros de combate, seguidos de mais setenta e cinco mil, oito milhões de toneladas de embarcações - em suma, os mais audaciosos números que tinha retirado das nossas sugestões. Tão pouco dissimulou as consequências daí decorrentes: "a produção do país deve ser aumentada muito acima do seu nível actual, mesmo que isso signifique uma perturbação na existência do emprego de milhões dos nossos concidadãos".» (p.178) (1)
O "esforço" do armamento militar actual. (2011)
Fonte: http://www.washingtonsblog.com/2014/05/90-deaths-war-civilians.html
Ora, se pensarmos que também os alemães, os russos e os japoneses se empenhavam intensamente no armamento militar, teremos uma ideia de como, em resultado da loucura de tão poucos homens, tanto da humanidade e dos recursos ambientais eram postos ao serviço da pura destruição!... É esse o meu grande lamento.
Como disse antes, algumas páginas mais à frente, Monnet prossegue a apresentação da "obscenidade" e da satisfação pessoal for estar envolvido nela.
Não, senhores detractores de Jean Monnet, não estou do vosso lado. Lamento a Guerra, todas as guerras; e quando, desde logo na Primeira Guerra, Monnet almejava e fantasiava na sua mente a aliança, não entre amigos, mas também com os inimigos, era para prevenir que algum dia este uso obsceno dos recursos dos recursos da Terra pudesse acontecer. A seu tempo, falaremos do que Jean Monnet pensou e sentiu sobre o lançamento das bombas em Hiroshima e Nagasaki, num tempo que já não era de Roosevelt, era de Truman.
A segunda enumeração:
«O facto de a produção de aviões de guerra, insignificante em 1940, se ter aproximado, quando se procedeu a um balanço total no dia da vitória, do número fabuloso de trezentos mil aparelhos, o facto de cem mil carros de combate terem saído sem contratempos das fábricas de automóveis em período de crise, de cento e vinte e quatro mil barcos terem saído dos estaleiros que tinham estado adormecidos durante a recessão, de dois milhões e setecentas mil metrelhadoras terem saído das fábricas e de quatrocentos e trinta milhões de toneladas de aço terem saído dos altos-fornos; o facto de, em suma, a economia de um país ter conseguido em tão pouco tempo assumir tal dinâmica só pode parecer evidente a quem acredita que o poderio dos Estados Unidos é um dado natural. Sem dúvida, o que é natural nos americanos é a organização e a expansão. Mas esta disposição de espírito não dispensa o esforço e a disciplina. Só se torna activa quando é desenvolvida por homens enérgicos e responsáveis. Eu pretendi viver no meio destes homens e tive a felicidade de poder inspirar, por vezes, a sua acção.» (p. 181) (2)
(1) «Il ne cacha rien au monde des objectifs de production militaire : soixante mille avions de toutes sortes en 1942, cent vingt-cinq mille en 1943, quarante-cinq mille, puis soixante-quinze mille chars, huit millions de tonnes de bateaux – bref, les chiffres les plus audacieux qu'il avait retenus de nos suggestions. Il n'en dissimula pas non plus les conséquences : « La production de ce pays doit être relevée largement au-dessus de son niveau actuel, même si cela signifie une perturbation dans l'existence et dans l'emploi de millions de nos concitoyens. Ce jour-là, plus qu'à aucun autre moment de ma vie, j'éprouvai la satisfaction d'avoir contribué à une décision qui changerait le cours des évènements.»

(2) «Que la production d'avions de guerre, insignifiante en 1940, ait approché lorsqu'on en fit le bilan total au jour de la victoire le chiffre fabuleux de trois cent mille appareils; que cent mille tanks soient sortis sans à-coups des usines d'automobiles en crise, cent vingt-quatre mille bateaux des chantiers endormis dans la récession, deux millions sept cent mille mitrailleuses des fabriques, quatre cent trente millions de tonnes d'acier des hauts fourneaux; que l'économie d'un pays ait pu en si peu de mois prendre un aussi grand essor ne paraît évident qu'à ceux qui croient que la puissance des États-Unis est une donnée naturelle. Sans doute, ce qui est naturel aux Américains est l'organisation et l'expansion. Mais cette disposition d'esprit ne les dispense pas de l'effort et de la discipline. Et elle ne devient pas active sans être entraînée par des hommes énergiques et responsables. J'ai voulu vivre au millieu de ces hommes et j'ai eu le bonheur de pouvoir inspirer quelques fois leurs actions.»

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 009, FAZ 63 ANOS

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 009

10 de Agosto de 1952, das palavras à acção

E assim tudo começou. É Jean Monnet quem preside à Alta Autoridade da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). O primeiro lingote europeu de ferro é fundido em 30 de Abril de 1953, em Esch-sur-Alzette, no grão-ducado do Luxemburgo. Monnet terminou o mandato em 3 de Junho de 1955.

(locução e legendas em francês)


Copyright: Photo Parlement européen Source: Première coulée de fonte européenne.
Esch-sur-Alzette: Photothèque Parlement européen, 3004/1953. Noir et blanc.


domingo, 2 de agosto de 2015

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 008, "O veto é o símbolo da impotência."

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 008

"O veto é o símbolo da impotência." (Jean Monnet, Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p.
Uma sessão do Conselho da Sociedade das Nações
96)

Depois de expressar a sua desesperança nas assembleias [da Sociedade das Nações] em que se aplicava a regra da unanimidade, ilustrada com um exemplo nada abonatório para o dorminhoco representante do governo de Sua Majestade, Jean Monnet afirma nas suas Memórias:
«O veto é a causa profunda e, ao mesmo tempo, o símbolo da impotência para ultrapassar os egoísmos nacionais. Mas é tão-somente a expressão de bloqueios mais profundos e frequentemente inconfessados.»
E prossegue expondo o seu pensamento
«A política inglesa procurava um equilíbrio de poder no continente, e a França queria dominar a Alemanha, e, se ainda não pensava na vingança, manobrava esforços no sentido de desfazer os constrangimentos. O vício residia no próprio Tratado de Versalhes: este fundava-se na discriminação. Ora, desde o dia em que me ocupei dos assuntos públicos, compreendi que a igualdade era absolutamente essencial nas relações entre os povos, tal como entre os homens. Uma paz de desigualdade nada podia trazer de bom.»
Tão pouco texto e tanto para pensar! Sobre unanimidade, veto, igualdade, discriminação, paz; desconfiança, egoísmo e sede de domínio.

sábado, 1 de agosto de 2015

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 007, Os migrantes, a ilha de Lampedusa, e o túnel do Canal da Mancha. Que têm eles a ver com Jean Monnet?

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 007

Os migrantes, a ilha de Lampedusa, e o túnel do Canal da Mancha. Que têm eles a ver com Jean Monnet?

A associação poderá parecer forçada, sim, poderá; mas com tantos barcos, tantos camiões, tantas fronteiras, tantos polícias, tantas disputas, tantas faltas de entendimento, e tanta gente pobre a lutar pela sobrevivência, não consigo deixar de me lembrar que o primeiro grande esforço de Jean Monnet (andava ele na casa dos 20 anos) para a congregação das vontades, das decisões e das soluções dos grandes problemas da Europa, foi precisamente no sector do transporte, essencialmente marítimo. Era preciso - disso estava Monnet convicto - abraçar uma política comum do transporte do trigo; e de muitas outras matérias-primas, entre a França e a Inglaterra. Empenhado nisso logo no primeiro ano da Guerra, em 1914, só em 1918 conseguiu ele alcançar o seu objectivo.
"Mais vale tarde que nunca", dirão uns; "Ora, se calhar, quando já não era preciso", dirão outros. No entender de Monnet e outros, nessa altura o desfecho da guerra ainda podia pender a favor do lado alemão ou do lado da Aliança, e o acordo de transporte comum total contribuiu decisivamente para a vitória dos aliados.
Jean Monnet afirma que o grande desafio não era a unidade em tempo de guerra; prospectivamente, ele ganhava consciência de que o grande desafio era a unidade entre quem governasse "as populações libertadas, neutras ou inimigas" depois da Guerra.
Ora, o que assistimos hoje em dia é que, não obstante a evolução havida, o que mina a unidade, a coordenação, a solidariedade é - sempre fazendo referência ao pensamento de Monnet - é a falta de confiança, a primazia do interesse nacional e o primado de "as leis naturais da oferta e da procura". 
Referindo-se à última reunião do Conselho Económico Supremo, a 4 de Abril de 1919, escreve Monnet nas suas memórias:
Ao sair, Clémentel disse-me: "É a ruptura da solidariedade pela qual tanto trabalhámos. Sem esse altruísmo, sem esta cooperação desinteressada que procurámos obter entre os Aliados e que agora seria necessário alargar aos antigos adversários, tudo terá de recomeçar um dia. [...] Seria vão procurar o responsável por este retorno aos hábitos do passado: foi a natureza que retomou o seu curso constante. Seriam ainda necessárias muitas provas para que os europeus compreendessem que só lhes restava escolher entre a união e um longo declínio.» (Jean Monnet, Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p. 75)
 A que natureza se referirá Monnet? Escrevendo isto pouco depois de designar "as leis naturais da oferta e da procura", seria, no meu entender, precisamente a esta natureza.
Já noutro apontamento destes "vezes e revezes" referi a importância determinante, para Jean Monnet, da confiança.
Ora, o que os acontecimentos lamentáveis a que assistimos em toda a Europa (os dramas dos imigrantes africanos na ilha de Lampedusa e nas ilhas gregas; os muros que se erguem as fronteiras entre países europeus; os dramas no Túnel do Canal), em que um problema humano muito extenso, que afecta todo o espaço europeu, e bem para lá das suas fronteiras, mostram, com bem infeliz evidência, é que, perante um problema grave, é, mais uma vez, o primado da desconfiança entre os governos europeus que vem ao de cima minar a cooperação e a solidariedade entre os governos; é o reflexo de defesa, medroso, que fecha os países em re-acentuados nacionalismos - sim, a Europa sonhada pelos estadistas que elevámos os estatuto de nobres referências está outra vez em declínio. Como há 100 anos atrás; como há 70 anos atrás; como há...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 006, Os valores humanos.

OS VEZES E OS REVEZES DO IDEAL EUROPEU - 006

Os valores humanos. Quais estão em jogo no concerto das nações? Os espontâneos e os adquiridos. A regra da sinceridade.

«Antes de cada reunião, Kohnstamm e eu tratávamos de aproximar as opiniões divergentes, graças a explicações que, por vezes, demoravam vários meses. Para isso, dispúnhamos da nossa capacidade de convicção, mas também, e sobretudo, de uma regra cuja força é pouco conhecida: a sinceridade. Púnhamos as cartas na mesa e todos podiam ter a certeza de que usávamos a mesma linguagem com todos. Se nem sempre dizer tudo a todos, é indispensável dizer a todos a mesma coisa. A confiança tem esse preço, e nunca obtive, ou, pelo menos, nunca tentei obter nada sem confiança.
Havia mais do que isso entre nós: havia amizade. Esta não era um dado à partida e não podia ser condição de sucesso do Comité. No entanto, instalou-se pouco a pouco e tornou-se um grande suplemento de força. Vinte anos de encontros e de luta solidária entre homens muito diferentes criam um laço pessoal sólido.» (Jean Monnet, Memórias, Ulisseia, 2004 (1976), p. 420)
Jean Monnet tem 67 anos quando acontecem os factos que sustentam esta reflexão; ou seja, 41 anos depois dos factos que o fizeram escrever esta outra reflexão:
«quando colocados em determinadas condições, os homens percebem que os interesses são comuns e, a partir daí, tendem a pôr-se de acordo. Tais condições consistem em falar do mesmo problema, com vontade e até mesmo com a obrigação de encontrar uma solução aceitável para todos.» (ibidem, p. 57)
Não digo, por agora mais nada; tudo o que dissesse faria certamente ruído e perturbaria a percepção destas palavras.

As palavras originais:
«Avant chaque réunion, Kohnstamm et moi avions rapproché, à force d'éxplications que prenaient parfois plusieurs mois, les opinions différentes. Pour celà, nous disposions de notre capacité de conviction, mais surtout, d'une règle dont la puissance est méconnue : la sincérité. Nos cartes étaient sur la table et chacun pouvait s’assurer que nous lui tenions le même langage qu’aux autres.S’il n’est pas toujours utile de dire tout à tous, il est indispensable de dire à tous la même chose. La confiance est à ce prix, et je n’ai jamais rien obtenu, ou du moins tenté d’obtenir, sans la confiance.»
«les hommes, lorsqu'ils sont placés dans certaines conditions, voient  que leur intêrêt est commum et dès lors sont portés à se mettre d'accord. Ces conditions sont qu'on parle du même problème avec la vplonté et même l'obligation de lui donner une solution acceptable pour tous.»

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O adiamento devastador da reestruturação da dívida grega - Opinião - DN

O adiamento devastador da reestruturação da dívida grega - Opinião - DN



O objetivo de reestruturar uma dívida é reduzir a magnitude dos novos empréstimos necessários para salvar uma entidade insolvente. Os credores concordam no alívio da dívida para recuperarem o máximo do valor da mesma e para concederem o mínimo possível de novos financiamentos à dita entidade insolvente.

Curiosamente, os credores da Grécia parecem incapazes de apreciar este válido princípio financeiro. No que respeita à dívida grega, houve um claro padrão que surgiu ao longo dos últimos cinco anos. E que permanece inalterado até hoje.

Em 2010, a Europa e o Fundo Monetário Internacional concederam empréstimos ao insolvente estado grego no valor de 44% do PIB do país. A simples menção da reestruturação da dívida era considerada inadmissível e motivo para ridicularizar aqueles de nós que ousavam sugerir a sua inevitabilidade.

Em 2012, como o rácio da dívida em relação ao PIB aumentou desmesuradamente, os credores privados da Grécia sofreram uma redução significativa do valor dos seus títulos (haircut) que atingiu os 34%. Ao mesmo tempo, no entanto, novos empréstimos no valor de 63% do PIB foram adicionados à dívida nacional da Grécia. Poucos meses depois, em novembro, o Eurogrupo (constituído pelos ministros das Finanças dos membros da zona euro) indicou que o alívio da dívida seria finalizado em dezembro de 2014, quando o programa de 2012 estivesse concluído "com sucesso" e o orçamento do governo grego tivesse atingido um superavit primário (que exclui os pagamentos de juros).

Em 2015, no entanto, com o superavit primário alcançado, os credores da Grécia recusaram-se a discutir sequer o alívio da dívida. Durante cinco meses, as negociações mantiveram-se num impasse, culminando no referendo de 5 de julho na Grécia, em que os eleitores rejeitaram esmagadoramente mais austeridade, e a subsequente rendição do governo grego, formalizada no acordo de 12 de julho da Cimeira do Euro. Esse acordo, que é agora o modelo para o relacionamento da Grécia com a zona euro, perpetua o padrão que dura já há cinco anos de agendar a reestruturação da dívida para o final de uma sequência deplorável de aperto fiscal, contração económica e fracasso do programa.

Na verdade, a sequência do novo "resgate" prevista no acordo 12 de julho começa previsivelmente com a adoção - antes do fim do mês - de duras medidas fiscais e metas orçamentais de médio prazo equivalentes a outro período de rigorosa austeridade. Em seguida, vem uma negociação em meados do verão de outro grande empréstimo, equivalente a 48% do PIB (o rácio da dívida em relação ao PIB já está acima de 180%). Finalmente, em novembro, na melhor das hipóteses, e depois de a primeira avaliação do novo programa estar concluída, "o Eurogrupo está pronto a considerar, se necessário, eventuais medidas adicionais... visando assegurar que as necessidades de financiamento gerais permanecem a um nível sustentável".

Durante as negociações em que participei, de 25 de janeiro a 5 de julho, sugeri repetidamente aos nossos credores uma série de conversões de dívida inteligentes. O objetivo era minimizar a quantidade de novos financiamentos concedidos pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade e pelo FMI para refinanciar a dívida grega e assegurar que a Grécia se tornaria elegível ainda em 2015 para o programa de compra de ativos do Banco Central Europeu (quantitative easing), restaurando efetivamente o acesso da Grécia aos mercados de capitais. Nós calculámos que não seriam necessários mais de 30 mil milhões de euros (33 biliões de dólares ou 17% do PIB) de novo financiamento do MEE e que nenhuma parte dele seria necessária para o orçamento primário do Estado grego.

As nossas propostas não foram rejeitadas. Embora soubéssemos de fonte segura que eram tecnicamente rigorosas e legalmente corretas, elas simplesmente nunca foram discutidas. A vontade política do Eurogrupo foi a de ignorar as nossas propostas, deixar que as negociações fracassassem, impor um feriado bancário por tempo indeterminado e forçar o governo grego a aquiescer a tudo - incluindo um novo empréstimo maciço que é quase o triplo do que tínhamos proposto. Mais uma vez, os credores da Grécia puseram a carroça à frente dos bois ao insistir que o novo empréstimo fosse aprovado antes de qualquer discussão sobre a redução da dívida. Como resultado, o novo empréstimo considerado necessário cresceu inexoravelmente, tal como em 2010 e 2012.

Uma dívida insustentável é, mais cedo ou mais tarde, reduzida. Mas o momento preciso e a natureza dessa redução faz uma enorme diferença para as perspetivas económicas de um país. E a Grécia está à beira de uma crise humana hoje, porque a reestruturação inevitável da sua dívida tem sido usada como uma desculpa para adiar o anúncio dessa reestruturação ad infinitum. Como um alto funcionário da Comissão Europeia me perguntou uma vez: "A vossa dívida vai ser cortada aconteça o que acontecer, então porque é que está a gastar um capital político precioso ao insistir que a reestruturação seja anunciada agora?"

A resposta deveria ter sido óbvia. Uma reestruturação da dívida ex ante, que reduza o tamanho de quaisquer novos empréstimos e torne a dívida sustentável antes que quaisquer reformas sejam implementadas, tem boas hipóteses de atrair investimento, estabilizar os rendimentos e preparar o terreno para a recuperação. Em nítido contraste, uma redução da dívida como a da Grécia em 2012, que resultou de um fracasso do programa, só contribui para manter a espiral descendente.

Porque é que os credores da Grécia se recusam a agir no que respeita à reestruturação da dívida antes de serem negociados quaisquer novos empréstimos? E porque é que preferem um novo pacote de empréstimo muito maior do que o necessário?

As respostas a estas perguntas não podem ser encontradas numa discussão sobre finanças sérias, sejam elas públicas ou privadas, pois residem firmemente no reino da política do poder. Dívida é sinónimo de poder do credor; e, tal como a Grécia aprendeu da maneira mais difícil, a dívida insustentável transforma o credor em Leviatã. A vida sob o seu poder está a tornar-se desagradável, brutal e, para muitos dos meus compatriotas, curta.