quarta-feira, 1 de abril de 2015

ADN CULTURAL - A PSICOLOGIA DA GLOBALIZAÇÃO

ADN CULTURAL - A PSICOLOGIA DA GLOBALIZAÇÃO
Ora bem, aqui está um livro que terei de ler...
E se as origens da crise da zona euro remontassem há 45 mil anos a esta parte? E se as divisões que colocam a Alemanha e a Grécia em lados diferentes da barricada estivessem relacionadas com o seu ADN cultural e psicológico? A resposta a estas e a outras questões são dadas num livro apaixonante, o qual demonstra que as marcas deixadas pelos nossos antepassados não constituem um mero exercício de exploração intelectual, mas sim uma aprendizagem para o futuro. (por Helena Oliveira) 
«Gurnek Bains é o co-fundador e presidente do conselho de administração da YSC, uma das maiores consultoras de psicologia corporativa do mundo, espalhada por 20 países e “parceira” habitual de trabalho de cerca de 40% das empresas que compõem o FTSE100, ou o índice das multinacionais mais poderosas dos Estados Unidos. O seu mais recente livro – Cultural DNA: The Psychology of Globalization – tem como base uma pesquisa extensa e original proveniente de áreas como a neurociência, a genética comportamental, a psicologia e a história e funciona como um convite para os líderes globais, empresariais e políticos, se colocarem “na pele do outro” com vista a um envolvimento e compromisso mais elevados num mundo crescentemente globalizado.

Na medida em que o trabalho agora publicado dá “muito pano para mangas”, o VER optou por dividir a mensagem deste livro em dois artigos distintos. Neste, o leitor poderá “viajar no tempo” e acompanhar o raciocínio do autor que o leva a afirmar que a crise da zona euro, no geral, e as recentes discórdias que opõem os alemães aos gregos, no particular, poderão ter origem nas duas rotas, completamente distintas, através das quais a população original de caçadores recolectores chegou ao Velho Continente, há 45 mil anos.

Nesta mesma newsletter, poderá ainda ler um artigo, cuja temática faz parte integrante do livro em causa, e que se baseia numa extensa pesquisa que o autor e a consultora que dirige realizaram sobre os diferentes estilos de liderança, tanto ao nível político como corporativo, na arena global. Para Gurnek Bain, os líderes que têm nas suas mãos desafios globais têm de ser igualmente especialistas culturais, psicólogos e historiadores, caso pretendam imprimir a diferença e deixar algum legado digno de nota no longo prazo.

Mas e por questões de “proximidade” e de actualidade, vejamos o que Gurnek Bains “descobriu” sobre o efeito do ADN cultural na crise da zona euro, em particular da que continua a afectar os países do sul da Europa.

A psicologia subjacente à crise da zona Euro

Com o braço de ferro entre gregos e alemães a dominar as notícias da actualidade, seria um desperdício não partilhar a visão de Gurnek Bains sobre aquela que não é apenas uma batalha económica ou financeira, mas também uma divisão em muito assente nas diferenças culturais cruciais que separam os dois países. Mas Bains vai mais longe e, num excerto do livro publicado pela revista Fortune, oferece a sua visão – de acordo com a investigação que fez para a obra em causa – sobre a ausência de “sustentabilidade económica” do projecto europeu, a qual não foi suficientemente tida em conta pelos seus criadores, simplesmente porque não se deram ao trabalho de avaliar os factores culturais, extremamente enraizados, de uma Europa que partilha um elevado nível de similaridade cultural mas, em simultâneo, integra nas suas fronteiras várias divisões no que respeita a “instintos culturais e psicológicos”, bem espelhados, no geral, pelos gregos e pelos alemães.

Esta falta de visão pode igualmente ser aplicada às ambições económicas da Índia, China e de outras economias emergentes e é também abordada no livro em causa. E, uma nota prévia: “os líderes globais que pretendam ser bem-sucedidos nas suas batalhas “transfronteiriças” precisam de se transformar em especialistas culturais, psicólogos e historiadores, caso pretendam deixar uma marca de longo prazo nas empresas ou países que lideram”.

Para o autor, a importância da declaração acima proferida é bem ilustrada se olharmos com mais atenção para a crise da zona euro. “A vontade para criar uma entidade económica única, com uma moeda comum, uma circulação livre de pessoas e regras consistentes foi baseada no pressuposto, não inteiramente comprovado, mas forte, da existência de um elevado nível de similitude cultural entre os países europeus”, escreve. Mas, se por um lado, esta é uma verdade, por outro, é igualmente patente o facto de os instintos culturais e psicológicos dos gregos não serem os mesmos do que os dos alemães.

Sem qualquer tipo de juízo de valor, o autor chama a atenção para as diferenças óbvias e superficiais – como o facto de os gregos serem mais persistentes e mais hábeis a “driblar” as regras da UE, por exemplo no que diz respeito à proibição de fumar em espaços públicos – ao mesmo tempo que sublinha uma acentuação das mesmas no que respeita às atitudes relativas a questões financeiras e económicas, as quais os criadores da moeda comum falharam em reconhecer ou as encararam de forma demasiadamente optimista. Para Gurnek Bains, torna-se agora evidente que alguns dos problemas [da zona euro] tiveram origem nas formas distintas de abordar a gestão económica, o pagamento de impostos, as atitudes relativas à contração de empréstimos e a orientação relativamente ao trabalho que existem nos países pertencentes à União Europeia e que podem, a seu ver, vir a ameaçar todo o projecto europeu.

E, “escavando mais fundo”, o autor argumenta que estas diferenças em termos de atitude e comportamento têm origem nas distinções profundas que separam vários países no que respeita ao seu sistema de valores. De um modo muito geral, os países do sul e a Irlanda são muito mais religiosos, mais relacionais e agem “no calor do momento” versus os do norte que são mais seculares, mais individualistas e com instintos psicológicos “ de longo prazo”.

As culturas mais individualistas exigem outros mecanismos, independentes de uma autoridade religiosa ou da sanção de alguém da comunidade para regular o comportamento das pessoas, colocando, por isso, uma ênfase muito mais forte nas regras estabelecidas pelo Estado ou por outras instituições com peso análogo. Por seu turno, nas culturas mais relacionais do sul da Europa e na Irlanda, é mais fácil contornar as regras impostas por instituições mais distantes, sendo a obrigação devida ao círculo mais imediato que rodeia a pessoa que mais conta.

Adicionalmente, para os que vivem numa cultura moldada por orientações de curto prazo é também mais comum incorrer em comportamentos de risco quando ocorrem oportunidades económicas criadas, por exemplo, pelo acesso a dinheiro com taxas de juro baixas, sem se pensar muito nas consequências de longo prazo, de que são exemplo os financiamentos fáceis ou os benefícios concedidos pelos governos, em altura de “vacas gordas”.

As fronteiras – não só geográficas – que separam o norte e o sul da Europa

Mas de onde provêm estas diferenças nos sistemas de valores entre estas regiões (norte e sul da Europa)? Por mais surpreendente que possa parecer, e como escreve o autor, “do ponto de vista do ADN cultural, os instintos psicológicos divergentes entre os países do sul da Europa, mais a Irlanda, relativamente ao norte da Europa, fazem sentido se levarmos em linha de conta a forma como os humanos modernos se estabeleceram na Europa há 45 mil anos”.

Como é bem fundamentado no livro, a população original de caçadores recolectores da Europa chegou ao Velho Continente através de duas rotas completamente distintas – o que, de acordo com Bains, teve um enorme impacto no seu ADN cultural e psicológico. Um desses caminhos foi feito através do Médio Oriente, via Anatólia, de seguida através dos Balcãs e finalmente atingindo o sul da Europa. O outro envolveu uma rota mais a norte, através do Cáucaso e da Rússia Ocidental, passando pela Europa de leste, Polónia e Alemanha.

“Apesar da severa era do gelo e dos subsequentes eventos terem alterado a ‘fotografia’ mais tarde, muitos dos povos que actualmente habitam o norte da Europa são descendentes da população que seguiu o segundo caminho, sendo que os do sul trilharam, em grande parte, a primeira rota”, escreve Bains. E isso pode explicar o facto de, adicionalmente, quando ocorreu a expansão dos refugiados desta era glaciar, aqueles que se movimentaram em direcção ao norte, foram obrigados a lidar, ao longo de milhares de anos, com um ambiente ecológico radicalmente diferente comparativamente aos do sul. E, para sobreviver aos severos invernos do norte, o planeamento de longo prazo, em conjunto com uma ética rigorosa de trabalho, foram absolutamente cruciais para a sua sobrevivência, elucida o autor, acrescentando ainda uma outra curiosidade: “existem evidências consideráveis de que um movimento de pessoas provenientes de Espanha seguiu a rota da costa do Atlântico para repovoar a Irlanda e a zona ocidental da Escócia. “Na actualidade, existe uma linha genética clara divisora que atravessa o Reino Unido e que reflecte este movimento”, assegura.

Voltando às ligações possíveis destes eventos milenares com a crise actual que grassa na Europa, Bains sublinha ainda que muitos dos traços culturais, incluindo o catolicismo, mapeiam este padrão de entrada e difusão no Velho Continente, sendo que a crise europeia segue exactamente este mesmo padrão, incluindo o envolvimento da Irlanda. O autor defende assim que existem argumentos sólidos para se afirmar que o padrão das migrações e os distintos desafios ambientais que os humanos enfrentaram no sul e ao longo da costa atlântica conduziram a uma evolução dos seus instintos psicológicos e culturais de uma forma completamente diferente face aos que tiveram de enfrentar os desafios ambientais mais rigorosos colocados pela era glaciar e consequentes condições ecológicas [os do norte].

Para Bains, compreender as razões mais profundas originárias destas dificuldades não consiste apenas num exercício de exploração intelectual, na medida em que as mesmas têm implicações para o futuro. Para o autor, os alemães não irão desistir facilmente da sua vontade de impor regras e orientações explícitas que conduzam ao sucesso no longo prazo – na medida em que a sua sobrevivência no passado dependeu fortemente desta atitude. E, no que respeita aos gregos, a tentação para optar por abordagens de curto prazo e mais humanísticas, continuará a ser irresistível.

Assim, para resolver esta crise, de forma genuína e sustentável para o longo prazo, será necessário abordar e trabalhar nestas diferenças culturais, alerta Bains. E, para tal ser possível, os países do norte terão de questionar os seus instintos e adaptá-los tanto quanto os seus congéneres do sul foram obrigados a fazer. A capacidade de gerar empatia e olhar o mundo através dos olhos do “outro” consiste num enorme desafio, o qual, se não for abordado, poderá condenar todo o projecto europeu, alerta.»

quinta-feira, 26 de março de 2015

Grau Zero da ética política - a principal falha da nossa organização sócio-política

- E os outros, aguentam?
- Ai, aguentam, aguentam!
Os "notáveis" socialistas Augusto Santos Silva e José Lello, que tanto têm percorrido os corredores do poder, e tanto se têm sentado nas cadeiras de quem pode, quer e manda (há quem diga, de forma muito mais "brejeira" que eles têm mamado, mamado, mamado), desdenham com o desprezo que podem do camarada Henrique Neto, que se candidata à Presidência da República: dizem que ele é "bobo" e que é "o Beppe Grillo português!" Pois, não é um alinhado dos "mamadores" dos partidos "do arco da governação"!...
Do outro lado da bancada, a senhora ministra das Finanças reitera a confiança no seu secretário de Estado, Paulo Núncio, mesmo depois de se saber o que se sabe sobre a lista VIP das Finanças. Os actuais governantes perderam completamente a noção do que é a responsabilidade política dos actos; mas só perderam essa noção de forma escotomizada: é que continuam a exigi-la a todos os que não são por eles!

quarta-feira, 11 de março de 2015

O QUE VALE, NA VERDADE, ESTA AFIRMAÇÃO DE PASSOS COELHO?

O QUE VALE, NA VERDADE, ESTA AFIRMAÇÃO DE PASSOS COELHO?
"Lamento profundamente não ter tido consciência dessas obrigações."
Um cidadão - Passos Coelho - um dia chegou a primeiro-ministro do seu País. Passou a sacrifícios tremendos à generalidade dos cidadãos e tornou-se chefe de um Governo implacável no castigo de OBRIGAÇÕES não cumpridas, na Segurança Social e nas Finanças, por milhares de pessoas tão cidadãs quanto ele, a grande maioria com manifestas dificuldades económicas e financeiras.
Claramente consciente dos seus actos de incumprimento, o cidadão Passos Coelho tornado primeiro-ministro, fechou-se em copas e escolheu deliberadamente manter-se incumpridor; até que foi apanhado nestes "honestos procedimentos" por jornalistas. Puxa do "valor" da "frontalidade" de quem "assume" os erros pessoais, confessa ter tido distracção, esquecimento e falta de dinheiro; e vai à Assembleia da República (local onde, paradoxalmente, quem protesta com verdade nas galerias está em "incumprimento e desrespeito democrático" por quem na Tribuna dos Valores da República e da Democracia assume "arrependidamente" as falhas e as mentiras pessoais), sobe ao mais respeitável espaço de oratória política do País e, assertivo, fixa para a posteridade aquela frase: "Lamento profundamente não ter tido consciência dessas obrigações."
Sinceramente, soa a "Eh, pá, desculpem lá qualquer coisinha...".
Repito: o que vale, na verdade, eticamente, politicamente, "cidadanamente", civicamente, honestamente e psicologicamente esta afirmação?
Tenho de desabafar: Continuam a querer fazer do Zé Povinho um grande parvo!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Afinal, eles sabem mesmo o que andam a fazer!

Eles são os "iluminados", "honestos" e "solidários" dirigentes europeus - que teve um português (Durão Barroso) como chefe da banda durante muitos anos.
E há lá mais um português a cozinhar as coisas: Vítor Constâncio.

Martin Schulz diz que Europa está a pedir sacrifícios às pessoas para salvar bancos

"Estamos a pedir sacrifícios aos cidadãos, aos pais, para aceitarem salários mais baixos, impostos mais altos e menos serviços. E para quê? Para salvar os bancos. E os filhos estão desempregados. Se não mudarmos isso, se não voltarmos a um tratamento igualitário e justo, as promessas feitas pela Europa não serão cumpridas", disse Martin Schulz na conferência 'Um novo começo para o diálogo social', que decorre hoje em Bruxelas.

Num discurso de cerca de 20 minutos, o presidente do Parlamento Europeu referiu-se em concreto ao desemprego jovem na Grécia e em Espanha, sublinhando que "as pessoas falam de uma geração perdida na Europa" e que, "mesmo os que têm emprego muitas vezes estão presos numa espiral de estágios não remunerados e de contratos de curto prazo".

Martin Schulz afirmou ainda que "estas pessoas estão a pagar uma crise que não causaram e sentem que não é uma sociedade justa", destacando que compreende este sentimento e defendendo que esta "geração perdida" não afeta só os jovens, mas também os seus pais, que "investiram a vida toda na educação dos filhos".

"Se somos capazes de mobilizar milhões de euros para estabilizar o sistema bancário e temos de negociar com 28 chefes de Estado durante meses e meses por causa de seis mil milhões de euros para combater o desemprego... Compreendo os que pensam que isto não é uma sociedade justa", disse Schulz num discurso em que evidenciou várias vezes a importância do envolvimento dos representantes dos trabalhadores e das empresas na construção de políticas e de reformas estruturais.

O presidente do Parlamento Europeu destacou também que "a desconfiança é o sentimento de muita gente" na Europa, considerando que é transversal tanto entre os jovens como entre os mais velhos.

"Preocupa-me que as pessoas sejam incitadas para que se odeiem, ainda que sejam todas vítimas da crise financeira. Enfrentamos um tempo em que os demónios do passado estão a emergir: há líderes de governos democraticamente eleitos que são mostrados em desenhos como nazis e, noutros países, as pessoas são retratadas como preguiçosos e incompetentes e é isto que temo mais", lançou Schulz.

domingo, 1 de março de 2015

- Deixa-te de lérias, Fernando Pinto!... Vai bardamerda!

Pois é, o Big Brother das Finanças, há algumas semanas, notificou-me, via email, que estivesse descansado, não me descobriam dívida nenhuma por onde vasculharam, vasculharam, vasculharam... Passaram duas ou três semanas depois desse gloriosa certidão e, pimba!, nova notificação, desta vez a dizer que, afinal, não era bem assim, afinal, não tinham vasculhado tudo: tinha uma dividazinha de 9 euros (não, não é engano, são mesmo nove euros), pelo que - repito, afinal - teria de pagar... vinte e tal euros! Pois, eram juros, coimas, enfim, nada de especial..
http://www.publico.pt/politica/noticia/passos-coelho-acumulou-dividas
-a-seguranca-social-durante-cinco-anos-1687599?page=2#/follow
Por que será que me lembrei disto outra vez com a dívida de Passos Coelho à Segurança Social?... Eu fui notificado; ele, coitado!, não. E eu fui notificado duas vezes! Eu, quando soube, ri-me; sim, é verdade, depois também vociferei um palavrão - pronto, faço agora aqui o meu acto de contricção. Passos Coelho, pelo contrário, não se riu. nem deixou que o mais débil palavrão assomasse ao pensamento ou aos lábios. Coitado dele, outra vez! Em 2012 soube da dívida e, cheio de pudor enternecedor, decidiu não pagar, mas - oh! que nobreza de alma! - carregar aos ombros, que nem cruz ciliciosa, a dividazinha dele, quem sabe? até para assim expiar - oh, meus deus! como eu sou um vil pecador em pensamentos! Por que cheguei eu a pensar mal do senhor?... - a sua dívida, a minha e a dos outros portugueses todos, portugueses pobres, miseráveis, que não foram notificados pelas Finanças; mas eu fui, assumo-o!
- Deixa-te de lérias, Fernando Pinto!... Vai bardamerda! Trabalha, trabalha, trabalha, que assim te compete! Desconta, desconta, desconta, que isso também te compete! Passos Coelho e gente boa como ele velam pela honra e dignidade de todos nós!...

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A moderna odisseia grega - capítulo 31

Há tantos poderosos e governantes em Portugal que, invejosos e mesquinhos, não querem que a Grécia tenha sucesso!

Tsipras diz que a Grécia 'deixa para trás a austeridade' mas não às dificuldades - Globo - DN

"Ganhámos uma batalha, mas não a guerra", disse o primeiro-ministro grego sobre o acordo de sexta-feira com o Eurogrupo.


(...) "Herdámos um país à beira da falência, com os cofres vazios, mas frustrámos o plano das forças cegas conservadoras, dentro e fora do país, que queriam sufocar-nos", realçou.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma Farpa de Eça de Queiroz sobre o PODER

Eça de Queiroz, vinte anos depois de ter escrito esta Farpa, na altura em que a a republicou em "Uma Campanha Alegre", disse que, se calhar, tinha exagerado um bocadinho... 
Ora bem, 140 anos depois, nós, o que pensamos disto?... Será que Eça exagerou mesmo?... Ou não?...
IX
Junho 1871.
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos,os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.
Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais, e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio – a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas – pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...

E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto tão triunfante!